Ori e a urgência em retratar a cultura negra

Ori e a urgência em retratar a cultura negra

Ori (Divulgação – Instagram @ori_fineart)

O artista plástico Laerte Barcelos Herédia de Paiva, o Ori, nasceu na Tijuca na cidade do Rio de Janeiro e cresceu na efervescência do subúrbio em Marechal Hermes, onde o samba impera. “Minha família sempre foi do samba. Cresci nesse bairro onde as pessoas se reúnem mais na rua para conviver entre si e com o samba”, conta o artista plástico.

O nome, uma abreviação de Orixás, divindades da religião iorubá representadas pela natureza, é também uma homenagem ao Candomblé, religião adotada de todo coração e transbordante nas obras do artista.

O menino nascido no seio da arte musical, também veio artista e começou a desenhar aos seis anos. Mas diante da vida dura dos pais, foi crescendo e ouvindo: “ser artista não dá dinheiro; é preciso ter segurança na carreira”.

Bem ciente das dificuldades da vida artística, optou por estudar em áreas próximas, as quais envolvessem a habilidade de desenhar, por exemplo. Pensando assim, além de cursos técnicos na adolescência, o artista fez 3 períodos da faculdade de Publicidade, depois se embrenhou em Engenharia Química Têxtil e mais tarde passou para Design Gráfico. Por fim, chegou ao curso técnico de restauro e apaixonou-se pela área.

Aos 28 anos, Ori tornou-se técnico em restauro. Trabalhou em museus, bibliotecas e edifícios históricos do Rio de Janeiro e São Paulo. ”Coloquei a mão na massa literalmente para lidar com esculturas e pinturas a serem restauradas”, detalha.

Na casa dos 30, ao sair de uma empresa de restauro, decidiu reformar sua quitinete em Marechal Hermes e se deparou com uma ironia: era mais fácil encontrar no bairro um quadro de Jimi Hendrix ou Amy Winehouse do que de artistas ou personalidades negras brasileiríssimas como Cartola, Dona Ivone, Abdias do Nascimento, Zózimo ou Milton Santos.

Sem ter suas referências pessoais e artísticas homenageadas e lembradas em obras de arte, não teve jeito, Ori teve de pintar seus próprios quadros. Os amigos adoraram o resultado e o  incentivaram a assumir o que sempre foi: artista plástico. “Ser artista no Brasil exige coragem especialmente para quem não é de família abastada”, narra o artista.

Inspirações

Obra de arte criada por Ori (Divulgação – Instagram @ori_fineart)

Aos 38 anos, ele mora na capital paulista, além de artista plástico, é quadrinista, ilustrador e trabalha ocasionalmente com cerâmica. Nas artes plásticas, dedica-se à pintura de quadros a óleo; no papel, navega por aquarela, carvão, acrílica e subcolagem. Às vezes, mistura todas as técnicas no papel, explica.

As obras de Ori bebem de fontes inspiradoras potentes como Hector Julio Páride Bernabó, o Carybé e Kadir Nelson.

Carybé foi pintor, gravador, desenhista, ilustrador, ceramista, escultor, muralista, pesquisador, historiador e jornalista argentino, mas morou a maior parte da vida no Brasil. Também passou pela Itália na infância. Em solo brasileiro, estudou no Rio de Janeiro onde cursou a Escola Nacional de Belas Artes e foi na Bahia onde viveu por quase 50 anos. Quando se fixou em Salvador, o artista interessou-se e passou a falar da religiosidade e do cotidiano de pessoas humildes. Seu trabalho retratando a cultura afro-brasileira, especialmente ritos e orixás, o levou a receber o título de honra do Candomblé de obá de Xangô. Ele faleceu em Salvador em 1997, aos 86 anos.

Obra de arte criada por Ori

Obra de arte criada por Ori (Divulgação – Instagram @ori_fineart)

Outra referência importante do carioca Ori é Kadir Nelson: pintor e ilustrador norte-americano de 47 anos, conhecido pelas capas produzidas para a revista New Yorker e de álbuns feitos para os músicos Michael Jackson e Drake. Seus trabalhos concentram-se na cultura afro-americana.

Inspirado por esses dois ícones da arte e da cultura preta, Ori busca para o futuro criar uma arte menos figurativa, mais livre, mais subjetiva. “Sigo buscando essa identidade”, conta.

No momento, suas obras trazem força e delicadeza, além de um nível de detalhamento e profundidade extremamente exigentes para quem as observa. Ele retrata com amor e devoção a cultura afro-brasileira, os homens e mulheres do samba, da arte, da vida.

Mais ainda, as artes plásticas são o modo como Ori, pouco frequentador de templos, exerce sua fé. “Meu avô foi pai de santo, suas filhas preferiram não seguir a religião, então o axé dele ficou guardado esperando para se manifestar”, acredita. “Exerço a fé pela pintura. O Candomblé aparece muito na minha arte.”

As obras de Ori estão na ZIV. Acompanhe pelo site e instagram.

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